NA CASA DOS PAIS

NA CASA DOS PAIS

CABEM TODOS OS FILHOS,

MAS NA CASA DOS FILHOS

MUITAS VEZES NÃO CABEM OS PAIS.

Anúncios

Só 15 euros

12832366_998621020173386_7291726663955331437_n

Um homem chegou a casa tarde do trabalho, cansado, irritado e encontrou o seu filho de 5 anos à espera dele.

Pai, posso fazer-te uma pergunta?

O que é? Respondeu o homem.

Pai, quanto é que ganhas por hora?

Isso não é da tua conta. Porque é que estás a perguntar uma coisa dessas? – Respondeu o Pai em tom agressivo.

Eu só quero saber. Diz-me quanto ganhas numa hora?

Se queres saber, eu ganho 15,00 € por hora.

Ah… – o menino respondeu, com a cabeça para baixo.

Pai, podes emprestar-me 7,50 €?

O pai ficou furioso – Essa é a única razão pela qual me perguntaste isso?
Pensas que é assim que podes conseguir algum dinheiro para comprares um brinquedo ou alguma outra coisa? Vai para o teu quarto e deita-te. Eu não trabalho duramente todos os dias para tais infantilidades.

O menino foi calado para o seu quarto e fechou a porta.

O Pai sentou-se e começou a ficar ainda mais nervoso sobre as questões do filho. Como ele ousa fazer tais perguntas só para conseguir algum dinheiro?

Após cerca de uma hora, o homem tinha-se acalmado e começou a pensar:

Talvez houvesse algo que o filho realmente precisava comprar com esses 7,50 € e ele não pedia dinheiro com muita frequência. Foi para a porta do quarto do filho e abriu a porta.

Estás a dormir, meu filho? – perguntou.

Não pai, estou acordado! – respondeu o filho…

Eu estive a pensar, talvez eu tenha sido muito duro contigo. Tive um longo dia e acabei por descarregar em ti. Aqui estão os 7,50 € que me pediste.

O menino levantou-se a sorrir. Oh pai, obrigado, gritou. Rebuscou alguns trocos por baixo do seu travesseiro.

O Pai viu que o menino já tinha algum dinheiro e começou a enfurecer-se novamente.

O menino lentamente contou o seu dinheiro e, em seguida, olhou para o pai…

Por é que queres mais dinheiro se já tinhas algum? Gritou o pai.

Porque eu ainda não tinha o suficiente, mas agora já tenho. Pai, eu agora tenho 15,00 €. Posso comprar uma hora do teu tempo? Por favor, chega mais cedo amanhã a casa. Gostaria de jantar contigo.

O pai ficou destroçado. Colocou os seus braços em torno do filho, e pediu-lhe desculpa.

É apenas uma pequena lembrança a todos que trabalham duro na vida. Não devemos deixar escorregar através dos nossos dedos o
tempo sem ter passado algum desse tempo com aqueles que são importantes para nós, os que estão perto do nosso coração. Não te esqueças de compartilhar esses 15,00 € do valor do teu tempo, com alguém que gostas/amas.

Se morrermos amanhã, a empresa para a qual estamos a trabalhar, poderá facilmente substituir-nos em uma questão de horas. Mas a família e amigos que deixamos para trás irão sentir essa perda para o resto de suas vidas..

A morte: irreversível

Anselmo Borges

1. No passado dia 6, Jürgen Habermas, que continua a ser o filósofo vivo mais influente do mundo, deu uma longa entrevista ao El País. Logo de entrada, estando de acordo com a afirmação de que há a decadência da figura do intelectual comprometido, diz: “A pergunta nostálgica “porque é que já não há intelectuais?” está mal feita. Não pode havê-los, se já não há leitores aos quais continuar a chegar com argumentos.” Se foi “determinante uma esfera pública”, o que se passa é que “as suas frágeis estruturas estão agora a sofrer um processo acelerado de deterioração”. A esfera pública liberal na sua configuração clássica vivia de bases culturais e sociais, “principalmente da existência de um jornalismo desperto, com meios de referência e uma imprensa capaz de dirigir o interesse da grande maioria da cidadania para temas relevantes e a formação de opinião política. E também da existência de uma população de leitores que se interessa pela política e tem um bom nível de educação, acostumada ao processo conflitual de formação de opinião, dedicando tempo a ler imprensa independente de qualidade. Hoje, esta infra-estrutura já não está intacta. O efeito de fragmentação da internet deslocou o papel dos meios de comunicação tradicionais, sobretudo nas novas gerações. Antes de entrarem em jogo estas tendências centrífugas e atomizadoras dos novos media, a desintegração da esfera cidadã já tinha começado com a mercantilização da atenção pública. Agora os novos meios de comunicação praticam uma modalidade muito mais insidiosa de mercantilização”.

2. Esta situação insidiosa promove novas formas de analfabetismo, a desorientação e uma cultura da moleza e do achismo (toda a gente acha que…), como já aqui tentei explicar. No contexto do que aqui me traz hoje – a eutanásia -, poderíamos fazer um teste, com um inquérito aos portugueses (incluindo os deputados), para apurar quantos sabem distinguir claramente entre eutanásia (voluntária e involuntária, activa e passiva, directa e indirecta), distanásia, ortotanásia, suicídio medicamente ajudado, cuidados paliativos… Quando, por exemplo, para afirmar que se é contra a eutanásia, se escreve que se rejeita a morte assistida, é evidente que se está perante a ignorância ou se quer criar a confusão: de facto, quem não quer uma morte assistida? Mais uma razão para não haver pressas, já que, ao contrário do que se afirma, não há esclarecimento suficiente. Fica a pergunta: porquê tanta pressa, não esperando para colocar o tema nos programas dos partidos, com debate alargado na campanha eleitoral próxima? Tem-se medo de quê? Afinal, o tema também não consta no programa de governo. E vai-se votar sem o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?

É claro que esta questão configura uma mudança civilizacional. E não se pense em progresso, pois é de retrocesso que se trata. A eutanásia significa uma derrota: o que o Estado tem para oferecer às pessoas em extrema dificuldade é conceder-lhes o direito de pedir que as matem? De facto, se a eutanásia fosse aprovada, ficaria em vigor uma lei que concede o direito de pedi-la e o Estado teria mais um dever: concretizar esse direito, nos casos aceites, matando. Não se fuja às palavras, pois é de homicídio que se trata, ainda que a pedido.

3. Deixando os debates de princípio e em abstracto sobre autonomia – mesmo aqui, é bom reflectir que a autonomia não se pode confundir com auto-suficiência, já que a autonomia é sempre relacional -, sobre compaixão, tolerância, morte digna, vamos aos projectos de lei que vão ser votados no próximo dia 29 (todos os deputados os leram?) e que propõem que um médico possa matar um ser humano, a seu pedido, em determinadas condições. Miguel Oliveira da Silva, ex-presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, e Germano de Sousa, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, analisaram-nos e verificaram que “são muito semelhantes ao modelo holandês, pioneiro mundial, e ao modelo belga inicial, os quais, apesar das restrições e garantias iniciais, derraparam de tal modo que hoje as mortes por eutanásia aumentam nesses países em dez por cento ao ano aceitando-se cada vez mais indicações (como doença psiquiátrica e demência) inicialmente recusadas, chegando-se ao extremo de praticar eutanásia em crianças.” Continuam: “A simples existência de leis com este teor afecta a vontade dos doentes, influencia a respectiva família e os profissionais de saúde, como provam exemplos recentes na Bélgica e na Holanda em que foi aceite um pedido de eutanásia de um casal de idosos que não queria ser um peso para os filhos. Não podem subsistir dúvidas: se um dos projectos se tornar lei entre nós, o mesmo inevitavelmente sucederá. Não tenhamos a ingenuidade de pensar que somos diferentes ou melhores.”

No mesmo sentido, disse outro médico ilustre, A. Maia Gonçalves: a lei da eutanásia “será um fardo para as pessoas de idade”. Sobretudo quando se pensa nas situações dramáticas do Serviço Nacional de Saúde.

4. No ano passado, 2017, celebraram-se os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, e foi para mim uma honra participar num congresso internacional sobre esse acontecimento histórico, com uma conferência sobre “Teologia e pena de morte”. Para nossa honra, Portugal foi pioneiro mundial. Na altura, nos debates, muitos convenceram-se pela abolição ao pensarem nos erros que se podem cometer e de facto se cometem ao aplicar a pena de morte. Passado um ano, lamentavelmente, vai-se votar a eventual legalização da eutanásia. Não há o mesmo perigo de erro na sua aplicação? Pense nisso, senhor deputado. Porque é disso que se trata: da vida e da morte, e a morte é irreversível: não há volta atrás. Ainda bem que será cada deputado a votar individualmente: cada um e cada uma assumirá as suas responsabilidades históricas.

Desabafos ético-políticos

Anselmo Borges

1. O nosso tempo é um tempo cheio de possibilidades, promessas e realizações. Mas é também o tempo de um imenso vazio humano-espiritual. Para isso, duas razões principais. Por um lado, a falta de tempo, quando deveríamos, aparentemente, ter muito mais tempo. A vertigem do correr pelo correr, sem destino nem horizonte de finalidades propriamente humanas, porque é preciso correr, pela simples razão de que não se pode deixar de correr, esvazia a vida, sem tempo para o essencial. Por outro lado, o tsunami de informações, de opiniões, de comentários de comentários – nunca se tinha visto tão vistosa a profissão de comentador -, dispersa a existência, fá-la fragmentada, sem oriente nem norte, que é isso que quer dizer desorientado e desnorteado. Só resta a superfície e o “surfar” por ela, em vaidades fúteis. Para a política, sem estadistas, fica a busca, por todos os meios, do poder e da sua manutenção, em conluios espúrios com interesses outros que não propriamente o bem comum.

Em interpenetração e interdependência com estas razões, há uma terceira, mais funda: a perda do sentido último. Sem a transcendência, já não se espera para lá do tempo e tudo vacila oscilantemente. Sem a ultimidade imanente-transcendente, sem eternidade, fica o imediato, o aqui e agora, e tudo se dissolve em momentos que se devoram. Então, é aqui e agora que se goza, no prazer, no ter, no poder, no consumismo do consumo. Porque, depois, é o nada. Numa sociedade pós-cristã, o que restou é o relativismo e mesmo o niilismo. E aí está a prova: a incapacidade de integrar na existência as contrariedades e as dores que a vida inevitavelmente traz – veja-se a definição idealizada de saúde da OMS: “A saúde é um estado de bem-estar completo, físico, espiritual e social, e não apenas a ausência de doença e enfermidades”, e outros propuseram o ideal de saúde como o estado de bem-estar para poder trabalhar e gozar -, e esta é a primeira sociedade na história que não sabe lidar com a morte e que, por isso, teve de fazer dela tabu: disso pura e simplesmente não se fala e é preciso viver como se ela não existisse. Mas com a morte-tabu, já não há distinção, como mostrou atempadamente Martin Heidegger, em Sein und Zeit (Ser e Tempo), entre existência autêntica e existência inautêntica. E, na indistinção de dignidade e indignidade, justiça e injustiça, bem e mal, apagou-se a ética. Se tudo desemboca no nada, já tudo é nada.

2 Tanto intróito, para três desabafos

2. 1. Há quem se zangue muito por eu dizer que a legalização da eutanásia (já se ousa dizer eutanásia, porque se chegou a apresentar um projecto de lei para a despenalização da morte medicamente assistida, como se não quiséssemos todos uma morte medicamente, e não só, assistida) configura uma mudança civilizacional. Não configura? Se o Estado consagrar o direito de pedir a eutanásia, fica com mais uma obrigação: satisfazer esse direito, isto é, matar (por mais eufemismos que se use, é disso que se trata: dar a morte), quando a finalidade do Estado é beneficiar a vida. Disse, e bem, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães: “Uma pessoa pode ter o direito de querer morrer. Mas não pode ter o direito de pedir que a matem… (E) vão ter de ser os médicos a praticar a eutanásia, embora não conheça qualquer tratado onde conste que matar seja uma função dos médicos.” Para lá do mais, quando se frequenta o SNS, como me aconteceu recentemente, ao acompanhar um familiar a uma urgência, percebe-se melhor os perigos dramáticos que se corre ao legalizar a eutanásia. Não há o perigo do “plano inclinado”, empurrando alguns a pedir e outros a interiorizar que devem pedir a eutanásia? Veja-se a Bélgica, onde a eutanásia foi praticada a uma jovem de 27 anos por um problema psíquico. Depois, dizer que há esclarecimento suficiente da população é falso, como posso facilmente mostrar empiricamente.

Esta não é uma questão como as outras, pois é mesmo disso que se trata: da vida e da morte. Se houver um erro, não é possível repará-lo. Os partidos, com excepção do PAN, que escreveu que seria tema a debater, não colocaram a questão nos programas. Então, porque não esperam um pouco, até 2019, para fazê-lo e debater na campanha eleitoral? Ou têm medo? Medo de quê? Podem votar nesta legislatura: haverá legitimidade jurídica, mas não moral.

2. 2. Foi aprovada a lei que permite a mudança de género no registo aos 16 anos. Não é necessário sequer um relatório médico. Como professor de Antropologia Filosófica, tenho obrigação de saber da complexidade da sexualidade humana. E já fui procurado por quem sofreu demais por estes motivos. Isto, para dizer que é preciso ajudar as pessoas que sofrem com estes problemas. Mas ajudá-las de modo sensato. O que, com esta lei, não é o caso.

2. 3. Há muito que penso que os políticos são mal pagos em Portugal, sendo essa uma das razões por que nos cargos políticos muitas vezes não estão os melhores. Mas, depois, leio que eles se fazem pagar indirectamente com vantagens, pagamentos para deslocações e para isto e para aquilo, com muitos privilégios que os cidadãos ignoram e não têm, embora sejam eles, enquanto contribuintes, a pagar. Acabo agora mesmo de ler (dia 23, às 15.10) que “extras duplicam o salário de deputados”, com “subsídios isentos de impostos”.

Mas o que me levou a escrever foi o escândalo das viagens de deputados residentes nas regiões autónomas, que usam o seu bilhete, recebendo 500 euros, e pedem o reembolso ao abrigo do chamado “subsídio social de mobilidade”. O presidente da Assembleia da República pronunciou-se, declarando que “não infringiram nenhuma lei nem nenhum princípio ético”.

Desconheço a lei. Mas, se não infringiram nenhum princípio ético, então confesso que já não sei o que é a ética, nem sequer uma ética de mínimos.