Deixem os padres ser felizes

DANIEL OLIVEIRA – Expresso

Depois de vários erros, hesitações e ataques dos sectores ultraconservadores da Igreja, o Papa Francisco marcou um encontro dos presidentes de todas as Conferências Episcopais para debater o abuso sexual de menores e mandou as dioceses denunciar os casos que lhes chegassem a conhecimento. Não sei até onde Jorge Bergoglio quererá levar o debate e se terá força para o fazer a sério. Mas é para mim evidente que a Igreja Católica tem um problema que ultrapassa a forma como lida com estes problemas.

Sim, é verdade que uma estrutura fortemente hierarquizada e fechada contribui para a opacidade e, como se sabe, num ambiente assim é mais fácil que os abusos se perpetuem e até se alastrem. Mas não há nada em quem decide seguir a vida religiosa que o torne mais propenso ao abuso sexual de menores. Assim como não há nada nas crenças dos católicos que torne esses abusos toleráveis. E, no entanto, mesmo não conhecendo a real dimensão dos abusos sexuais de menores na Igreja (nunca conheceremos), parece ser evidente que o fenómeno tem uma relevância proporcionalmente superior ao que encontramos no resto da sociedade.

Sem querer fazer psicologia instantânea e não conhecendo nenhum estudo que suporte esta afirmação (dificilmente ele poderia existir), parece-me que o grande problema do clero católico é a imposição do celibato e da castidade. É bom recordar que o celibato (e a consequente castidade) não é um dogma de fé. É uma regra da Igreja que pode ser alterada.

A repressão da dimensão sexual das vidas dos padres e freiras é uma violência inaudita que só pode formar indivíduos amputados de uma dimensão central da natureza humana, frustrados na sua realização enquanto homens e mulheres e com natural propensão para desenvolver distúrbios comportamentais. Se não se quer afogar num mar de escândalos e vergonhas, o Vaticano terá de deixar aqueles que servem a Igreja serem pessoas realizadas e felizes

Os padres e as freiras são homens e mulheres. Não são feitos de uma massa diferente de todos nós. Têm os mesmos impulsos, instintos, fantasias e desejos. Têm as mesmas necessidades sexuais. A repressão dessa dimensão das suas vidas não é apenas uma opção religiosa. É uma violência inaudita que só pode formar indivíduos amputados de uma dimensão central da natureza humana, frustrados na sua realização enquanto homens e mulheres e com natural propensão para desenvolver distúrbios comportamentais. Não estou a fazer uma generalização, estou a falar nas condições que podem contribuir para um determinado comportamento.

O problema não está apenas na opacidade da Igreja, está numa imposição de um limite desumano que só pode provocar comportamentos desumanos. A felicidade do homem e da mulher dependem, entre outras coisas, de uma vida sexual saudável. E não há fé, realização espiritual ou entrega a uma causa que substitua esse instinto humano. Durante anos, a amputação da felicidade destes homens e mulheres foi resolvida às escondidas, com adultos mas também com menores. Hoje, falta à Igreja o poder de calar as vítimas. Se não quer afogar-se num mar de escândalos e vergonhas, o Vaticano terá de deixar aqueles que servem a Igreja serem pessoas realizadas e felizes. Por inteiro.

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