Morreu D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal

Fez de Setúbal a sua nova casa e prometeu anunciar o “Evangelho da Justiça e da Paz”. Nos 23 anos que esteve à frente da Diocese de Setúbal, denunciou o trabalho infantil, os salários em atraso, o desemprego e a vida nas barracas. Morreu aos 90 anos.

D. Manuel Martins, o bispo dos marginalizados

D. Manuel Martins faleceu este domingo, na Maia, às 14h05, “após receber a Santa Unção” e acompanhado pelos seus familiares, informou em comunicado a diocese de Setúbal.

No momento da sua ordenação episcopal, assumiu por inteiro a diocese: “Nasci Bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da justiça e da paz.”

Ao longo da sua vida, teve uma presença muito activa na área social e preocupou-se com os mais carentes e marginalizados. Durante a crise dos anos 80, D. Manuel Martins teve uma intervenção directa contra as situações de desemprego, salários em atraso, trabalho infantil e as más condições de habitação, nomeadamente o flagelo das barracas em Setúbal. Devido às denúncias que fez sobre as situações de pobreza e de fome na região de Setúbal, chegou a ser conhecido como o “bispo vermelho”.

O bispo emérito de Setúbal nasceu a 20 de Janeiro de 1927, em Leça do Balio, concelho de Matosinhos. Foi ordenado sacerdote em 1951, após a formação nos seminários do Porto, seguindo-se a frequência do curso de Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma. Em 1975 é nomeado bispo da nova Diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998.

“Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me”, recordou Manuel Martins, enquanto partilhou, com a Lusa, em 2016, algumas histórias desses tempos conturbados.

Nessa conversa com a Lusa, recordou um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro, Mário Soares.

“O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que ‘se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome'”, lembrou.

Existia mesmo “fome em Setúbal”, assegurou o ‘bispo vermelho’, que é considerado um dos principais responsáveis pela acção que a Igreja Católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos.

D. Manuel Martins em entrevista à Renascença em 2011: “Temos um défice de católicos a agir como políticos”

D. Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Acção Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, presidente da Secção Portuguesa da Pax Christi e da Fundação SPES.

Ao longo da vida foi várias vezes distinguido pela sua acção, sendo caracterizado como uma personalidade aberta e frontal. Em Setúbal, várias autarquias designaram-no cidadão honorário, tendo sido condecorado por diversas vezes com a medalha de mérito. O seu nome foi atribuído polo de Setúbal da Universidade Moderna e à antiga Escola Secundária n.º 1, localizada na Estrada do Alentejo.

O bispo emérito foi ainda agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo, durante as comemorações do 10 de Junho de 2007, em Setúbal, e com o galardão dos Direitos Humanos da Assembleia da República, a 10 de Dezembro de 2008.

Em Março deste ano, o Presidente da República Portuguesa saudou o percurso de vida de D. Manuel Martins, que completou 90 anos a 20 de Janeiro.

“Nascido em Matosinhos, no norte de Portugal, D. Manuel Martins sempre manteve a fidelidade aos princípios e valores distintivos daquela região do país: o sentido de serviço aos outros, a dedicação ao trabalho e a preocupação permanente com a justiça social”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa, num texto divulgado pela Presidência da República.

O Chefe de Estado sustentou que o antigo bispo de Setúbal coube projectar “os valores universais do humanismo cristão muito para lá dos limites da sua diocese”.

“Seria na Diocese de Setúbal que, entre 1975 e 1998, a lealdade a esses valores mais se fez sentir, tornando D. Manuel Martins uma personalidade por todos admirada quer pelo vigor e desassombro da sua palavra, quer pela energia da sua ação, quer pela sua rigorosa independência face aos poderes instituídos”, assinala o Presidente português.

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Autor:

carloscunha.net

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