Morreu um amigo

Carta aberta a D. António, bispo do Porto.
 

Caro D. António, percorro as nossas memórias e pela primeira vez deixas-me mal. Dizemos que és um homem bom. É verdade. Pura verdade. Mas é pouco. Entre pensamentos comovidos, surgiu-me um que me rasgou o sorriso e que faz justiça à tua bondade e ao teu modo de ser pastor. O Papa Francisco diz-nos que quer que sejamos pastores com odor a ovelhas. Pois deixa-me dizer-te: da próxima vez que estiver com o Papa Francisco dir-lhe-ei que conheci um bispo que deixou as ovelhas com odor a pastor.

Procuro luz e consolação na Palavra de Deus e ocorre-me aquela passagem do Evangelho segundo S. João em que Maria unge os pés do nosso Senhor com nardo puro e a casa encheu-se com a fragrância do perfume. Encontro amigos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e personalidades da nossa sociedade, e quando falamos de ti lá está a fragrância desse perfume que a tua morte libertou. Confirmam-se as palavras do Mestre: “Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”. ( Jo 12, 23).

A tua passagem pela Arquidiocese deixou marcas indeléveis e profundas no coração dos fiéis. A tua inteligência lúcida e conselho amigo e competente foram sempre uma ajuda inestimável no meu exercício como pastor. Os sacerdotes recordam-te com carinho e profundo sentimento de gratidão. A tua memória prodigiosa e cheia de afecto não conhecia limites a mais um nome, um aniversário, uma história. O teu sorriso abriu corações, mitigou conflitos, encurtou distâncias. O teu olhar penetrante e límpido espelhava o coração de um homem inteiro. A tua morte aumentou a saudade que já sentíamos. Olhando para a tua inteligência, considero-te um homem com senso profundo das coisas; olhando para o teu coração, recordar-te-ei como pastor de consensos onde o amor unia numa cumplicidade que o tempo não conseguirá destruir.

D. António, desde Segunda-feira que procuro um modo da Arquidiocese dizer obrigado pelo tanto que nos deste. Até que li a tua última homilia e encontro a homenagem perfeita, dar corpo ao teu sonho: “construir uma Igreja bela, como uma casa de família”. Recordando-te, prosseguiremos na responsabilidade de dar beleza à Arquidiocese através de um envolvimento de todos, particularmente dos mais frágeis, no amor infinito de Deus. A casa do Pai, onde agora moras, é a mesma casa onde ainda trabalharemos por um Reino de fraternidade e justiça.

Até ao dia do nosso encontro.

D. António, obrigado por tudo.

D. Jorge Ortiga,
Arcebispo Primaz

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Autor:

carloscunha.net

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