As minhas origens

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A saudade

Um médico conta esta conversa com uma menina de 11 anos, vítima de cancro. A história encontrei-a num livro de “pequenas histórias para a alma”, de Bruno Ferrero. A fotografia é o pôr-do-sol, hoje, em Leiria.
“Um dia, cheguei cedo ao hospital e ali encontrei o meu pequeno anjo sozinho no seu quarto. Perguntei-lhe pela mãe. A resposta que me deu, ainda hoje não consigo contá-la sem sentir profunda emoção.
“Doutor, – disse-me – a minha mãe sai muitas vezes do quarto para chorar, escondida nos corredores. Quando eu morrer, creio que sentirá muita saudade. Mas eu não tenho medo de morrer. Eu não nasci para esta vida”.
Perguntei-lhe: “O que é para ti a morte?”
“Olha, doutor, quando somos pequenos, às vezes, queremos dormir na cama dos nossos pais e, de manhã, acordamos na nossa cama, não é assim?”
“Sim, é” – respondi.
E ela: “Um dia vou dormir e o meu Pai virá buscar-me e acordarei na sua casa. Aquela será a minha verdadeira vida”.
Fiquei sem palavras, tal foi a surpresa pela maturidade e visão espiritual daquela criança.
“E a minha mãe ficará com mais saudade”, acrescentou.
Emocionado, procurando conter as lágrimas, perguntei:
“O que é que significa para ti a saudade?”
“Saudade é o amor que permanece”.
Hoje, aos 53 anos, desafio quem quer que seja a dar uma definição melhor, mais direta e simples da palavra saudade: é o amor que permanece e não se extingue!

O meu anjinho partiu, já há muitos anos. Mas deixou-me uma grande lição que me ajudou a tornar melhor a minha vida, a procurar ser mais humano e afetuoso com os meus pacientes, a redescobrir os verdadeiros valores. Como é belo existir a saudade, o amor que permanece para sempre!

Padre Jorge Guarda

Estas frases foram proferidas pelo cónego João Aguiar

– Descansar é uma afirmação de soberania

– Durante o verão é mais oportuno o verbo descansar

– Acumular é dar muito trabalho à traça

– Os avós e netos que não têm tempos livres

– Aprender a divertir no tempo de descanso

– Brincar com as ideias e pensamentos

– O lazer é menos rico do que o descanso

– Muitos entregam o lazer à preguiça

– O descanso tem momentos de paragem

– Todos temos um rio de infância

– As memórias empurram para amanhã

– A inutilidade de estar acordado

– O inabalável chamamento do mar

Só 15 euros

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Um homem chegou a casa tarde do trabalho, cansado, irritado e encontrou o seu filho de 5 anos à espera dele.

Pai, posso fazer-te uma pergunta?

O que é? Respondeu o homem.

Pai, quanto é que ganhas por hora?

Isso não é da tua conta. Porque é que estás a perguntar uma coisa dessas? – Respondeu o Pai em tom agressivo.

Eu só quero saber. Diz-me quanto ganhas numa hora?

Se queres saber, eu ganho 15,00 € por hora.

Ah… – o menino respondeu, com a cabeça para baixo.

Pai, podes emprestar-me 7,50 €?

O pai ficou furioso – Essa é a única razão pela qual me perguntaste isso?
Pensas que é assim que podes conseguir algum dinheiro para comprares um brinquedo ou alguma outra coisa? Vai para o teu quarto e deita-te. Eu não trabalho duramente todos os dias para tais infantilidades.

O menino foi calado para o seu quarto e fechou a porta.

O Pai sentou-se e começou a ficar ainda mais nervoso sobre as questões do filho. Como ele ousa fazer tais perguntas só para conseguir algum dinheiro?

Após cerca de uma hora, o homem tinha-se acalmado e começou a pensar:

Talvez houvesse algo que o filho realmente precisava comprar com esses 7,50 € e ele não pedia dinheiro com muita frequência. Foi para a porta do quarto do filho e abriu a porta.

Estás a dormir, meu filho? – perguntou.

Não pai, estou acordado! – respondeu o filho…

Eu estive a pensar, talvez eu tenha sido muito duro contigo. Tive um longo dia e acabei por descarregar em ti. Aqui estão os 7,50 € que me pediste.

O menino levantou-se a sorrir. Oh pai, obrigado, gritou. Rebuscou alguns trocos por baixo do seu travesseiro.

O Pai viu que o menino já tinha algum dinheiro e começou a enfurecer-se novamente.

O menino lentamente contou o seu dinheiro e, em seguida, olhou para o pai…

Por é que queres mais dinheiro se já tinhas algum? Gritou o pai.

Porque eu ainda não tinha o suficiente, mas agora já tenho. Pai, eu agora tenho 15,00 €. Posso comprar uma hora do teu tempo? Por favor, chega mais cedo amanhã a casa. Gostaria de jantar contigo.

O pai ficou destroçado. Colocou os seus braços em torno do filho, e pediu-lhe desculpa.

É apenas uma pequena lembrança a todos que trabalham duro na vida. Não devemos deixar escorregar através dos nossos dedos o
tempo sem ter passado algum desse tempo com aqueles que são importantes para nós, os que estão perto do nosso coração. Não te esqueças de compartilhar esses 15,00 € do valor do teu tempo, com alguém que gostas/amas.

Se morrermos amanhã, a empresa para a qual estamos a trabalhar, poderá facilmente substituir-nos em uma questão de horas. Mas a família e amigos que deixamos para trás irão sentir essa perda para o resto de suas vidas..

A morte: irreversível

Anselmo Borges

1. No passado dia 6, Jürgen Habermas, que continua a ser o filósofo vivo mais influente do mundo, deu uma longa entrevista ao El País. Logo de entrada, estando de acordo com a afirmação de que há a decadência da figura do intelectual comprometido, diz: “A pergunta nostálgica “porque é que já não há intelectuais?” está mal feita. Não pode havê-los, se já não há leitores aos quais continuar a chegar com argumentos.” Se foi “determinante uma esfera pública”, o que se passa é que “as suas frágeis estruturas estão agora a sofrer um processo acelerado de deterioração”. A esfera pública liberal na sua configuração clássica vivia de bases culturais e sociais, “principalmente da existência de um jornalismo desperto, com meios de referência e uma imprensa capaz de dirigir o interesse da grande maioria da cidadania para temas relevantes e a formação de opinião política. E também da existência de uma população de leitores que se interessa pela política e tem um bom nível de educação, acostumada ao processo conflitual de formação de opinião, dedicando tempo a ler imprensa independente de qualidade. Hoje, esta infra-estrutura já não está intacta. O efeito de fragmentação da internet deslocou o papel dos meios de comunicação tradicionais, sobretudo nas novas gerações. Antes de entrarem em jogo estas tendências centrífugas e atomizadoras dos novos media, a desintegração da esfera cidadã já tinha começado com a mercantilização da atenção pública. Agora os novos meios de comunicação praticam uma modalidade muito mais insidiosa de mercantilização”.

2. Esta situação insidiosa promove novas formas de analfabetismo, a desorientação e uma cultura da moleza e do achismo (toda a gente acha que…), como já aqui tentei explicar. No contexto do que aqui me traz hoje – a eutanásia -, poderíamos fazer um teste, com um inquérito aos portugueses (incluindo os deputados), para apurar quantos sabem distinguir claramente entre eutanásia (voluntária e involuntária, activa e passiva, directa e indirecta), distanásia, ortotanásia, suicídio medicamente ajudado, cuidados paliativos… Quando, por exemplo, para afirmar que se é contra a eutanásia, se escreve que se rejeita a morte assistida, é evidente que se está perante a ignorância ou se quer criar a confusão: de facto, quem não quer uma morte assistida? Mais uma razão para não haver pressas, já que, ao contrário do que se afirma, não há esclarecimento suficiente. Fica a pergunta: porquê tanta pressa, não esperando para colocar o tema nos programas dos partidos, com debate alargado na campanha eleitoral próxima? Tem-se medo de quê? Afinal, o tema também não consta no programa de governo. E vai-se votar sem o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?

É claro que esta questão configura uma mudança civilizacional. E não se pense em progresso, pois é de retrocesso que se trata. A eutanásia significa uma derrota: o que o Estado tem para oferecer às pessoas em extrema dificuldade é conceder-lhes o direito de pedir que as matem? De facto, se a eutanásia fosse aprovada, ficaria em vigor uma lei que concede o direito de pedi-la e o Estado teria mais um dever: concretizar esse direito, nos casos aceites, matando. Não se fuja às palavras, pois é de homicídio que se trata, ainda que a pedido.

3. Deixando os debates de princípio e em abstracto sobre autonomia – mesmo aqui, é bom reflectir que a autonomia não se pode confundir com auto-suficiência, já que a autonomia é sempre relacional -, sobre compaixão, tolerância, morte digna, vamos aos projectos de lei que vão ser votados no próximo dia 29 (todos os deputados os leram?) e que propõem que um médico possa matar um ser humano, a seu pedido, em determinadas condições. Miguel Oliveira da Silva, ex-presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, e Germano de Sousa, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, analisaram-nos e verificaram que “são muito semelhantes ao modelo holandês, pioneiro mundial, e ao modelo belga inicial, os quais, apesar das restrições e garantias iniciais, derraparam de tal modo que hoje as mortes por eutanásia aumentam nesses países em dez por cento ao ano aceitando-se cada vez mais indicações (como doença psiquiátrica e demência) inicialmente recusadas, chegando-se ao extremo de praticar eutanásia em crianças.” Continuam: “A simples existência de leis com este teor afecta a vontade dos doentes, influencia a respectiva família e os profissionais de saúde, como provam exemplos recentes na Bélgica e na Holanda em que foi aceite um pedido de eutanásia de um casal de idosos que não queria ser um peso para os filhos. Não podem subsistir dúvidas: se um dos projectos se tornar lei entre nós, o mesmo inevitavelmente sucederá. Não tenhamos a ingenuidade de pensar que somos diferentes ou melhores.”

No mesmo sentido, disse outro médico ilustre, A. Maia Gonçalves: a lei da eutanásia “será um fardo para as pessoas de idade”. Sobretudo quando se pensa nas situações dramáticas do Serviço Nacional de Saúde.

4. No ano passado, 2017, celebraram-se os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, e foi para mim uma honra participar num congresso internacional sobre esse acontecimento histórico, com uma conferência sobre “Teologia e pena de morte”. Para nossa honra, Portugal foi pioneiro mundial. Na altura, nos debates, muitos convenceram-se pela abolição ao pensarem nos erros que se podem cometer e de facto se cometem ao aplicar a pena de morte. Passado um ano, lamentavelmente, vai-se votar a eventual legalização da eutanásia. Não há o mesmo perigo de erro na sua aplicação? Pense nisso, senhor deputado. Porque é disso que se trata: da vida e da morte, e a morte é irreversível: não há volta atrás. Ainda bem que será cada deputado a votar individualmente: cada um e cada uma assumirá as suas responsabilidades históricas.